Caliandras
Resenha Crítica

Para Além das Letras

Obra de Mirelle Freitas & Vanessa Trajano

Para Além das Letras
Avaliação Editorial
EdiçãoEmilly Campos
Data da Obra20 de abril de 2026
LocalClube do Livro Conversa de Bois

"Houve o poeta que encontrou poesia em morrer lentamente e em matar lentamente. Haverá poesia também, ou apenas o prazer inerrável dos traiçoeiros sádicos, ávidos por aniquilar qualquer possibilidade de sonhar ou qualquer um que ouse esperançar?" DIANTE dessa citação do conto de Mirelle Freitas, "Do esperar, do lançar, do esperançar", começo a repensar minhas sensações ao ler Para Além das Letras, um livro composto por uma antologia de contos diversos e poéticos que nos fazem refletir sobre como a poesia pode nos fazer viver e morrer ao mesmo tempo diante das palavras. Cada texto traz experiências únicas, marcadas por sentimentos intensos, questionamentos e esperanças, mostrando que a literatura pode ser um espaço de criação, resistência e descoberta. É um livro que me fez refletir sobre todos os âmbitos da vida. Fiquei emocionada pela história de luta e sabedoria de "Ela só queria amar", da Daniella Figuereido — a história de uma mulher que lutou muito pelo amor e que, além de tudo, amava e acreditava que poderia ser amada diante de todas as coisas ruins que passara. Nessa história, vi a vida de várias mulheres que sofrem violência doméstica sendo contada: a dor de amar alguém que a machuca, seja fisicamente ou psicologicamente, o acaso de perder totalmente sua identidade por alguém que ama e, no processo, afastar-se de pessoas que realmente a amam, apenas por pensar que é aquele amor que deveria receber. A constatação da vida no conto "A efemeridade da vida", de Paulo Plácido, foi como um ensinamento de como a depressão é silenciosa, o vazio e a dor interna evidenciados pela sensação de rotina e do cotidiano. Jericó é uma pessoa observadora, que vê a vida com todas as suas falácias e feições, que tem sonhos possíveis e possibilidades de vida para realizá-los, mas, mesmo assim, não consegue consertar o que está quebrado por dentro. O conto me fez refletir sobre como a existência humana é frágil, instável e profundamente contraditória. Mesmo com a conexão com Raquel, que ele acreditava que poderia preencher esse vazio, isso não foi suficiente. A verdadeira escolha de Jericó foi entre a morte e a paixão. A morte, então, significou o desfecho de uma luta interna que, apesar do amor, nunca foi totalmente vencida. Em "Palácio de Odara", de Mirelle Freitas, me surpreendi com a força da promessa de ascensão e mobilidade social. Odara, seduzida por um palácio, acreditava que encontraria a salvação. Adão, impulsionado por essa promessa, partiu rumo ao palácio. Mas, no fim, era tudo uma farsa: o palácio estava no meio de uma guerra. Adão, ao seguir essa ilusão, traiu a confiança de Odara. Essa promessa vazia do capitalismo deixou ambos vulneráveis. Esse texto reflete muito nos dias de hoje. Quantas pessoas ainda acreditam em promessas de uma vida melhor, de lugares que se apresentam como saída, mas que, na realidade, são armadilhas. Sinto que aprendi muito com cada uma das histórias desse livro. Cada conto me ensinou algo diferente sobre amor, dor, identidade e esperança. Foi uma leitura que me tocou e que, com certeza, vou levar os ensinamentos para a minha vida.

"Nossa missão é: dar o devido valor ao que dá sentido à vida."